A falácia dos nativos digitais

Por , 15 de Junho de 2016 a las 15:00
A falácia dos nativos digitais
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A falácia dos nativos digitais

Por , 15 de Junho de 2016 a las 15:00

Foi o autor americano Marc Prensky quem falou pela primeira vez dos nativos digitais para se referir aos jovens nascidos a partir de mais ou menos 1990 e que portanto estiveram desde seu primeiro minuto de vida rodeados de computadores, telefones celulares e outras ferramentas da era digital.

Em contraposição, Prensky chamava “imigrantes digitais” aquelas outras pessoas que tiveram seus primeiros contatos com a tecnologia digital um pouco mais velhos. O autor acabava afirmando que um ambiente totalmente digital muda drasticamente a forma como os jovens pensam e processam a informação, e que inclusive chega a mudar suas estruturas cerebrais fazendo com que estejam muito mais adaptados e permeáveis às novas tecnologias.

O termo “nativo digital” sugere que os jovens sabem utilizar a tecnologia de forma inata, que a entendem perfeitamente, que aprendem sozinhos a utilizar qualquer ferramenta informática, e que são capazes de fazer mágica com qualquer dispositivo que caia em suas mãos. Em consequência não necessitam formação em tecnologia, pois “já sabem mais que nós”.

Isso é verdade? É a mesma coisa ser “Nativo Digital” que “Competente Digital”? Parece claro que não é. Os jovens da atualidade nasceram em um mundo digitalizado e, portanto, possuem “aptidões” para o uso das TIC, mas isso não quer dizer que tenham desenvolvido as habilidades necessárias para serem “competentes” nisto. É evidente que para eles é muito fácil entender como funciona um determinado aplicativo, mas nem tudo significa ser capaz de escrever um whatsapp com uma mão enquanto com a outra joga uma partida de Candy Crush. Deverá existir um conhecimento mais aprofundado em tecnologia, para ser “digitalmente competente”.

Então o próprio inventor do termo “nativo digital” criou poucos anos depois outro termo, o de “sábio digital”, para designar a uma pessoa que não somente sabe como utilizar as tecnologias, mas que também tem a capacidade de avaliá-las criticamente e de saber utilizá-las na medida certa. Não se pode dizer que muitos jovens sejam “sábios digitais”. Carecem de um padrão ou modelo de utilização das redes sociais minimamente razoável, pois pensam que todas as redes sociais são iguais, não têm um pensamento crítico sobre a informação que recebem da internet, não sabem reconhecer um spam ou não têm nenhuma ideia de como funciona um motor de busca. Ficam simplesmente na superfície e não se aprofundam na tecnologia. Como disse o escritor Jordi Sierra i Fabra, os jovens (e os mais velhos também) são “uns ignorantes bem informados, mas uns burros globais”, por que todos temos acesso a muita informação, mas de maneira específica, informação entregue em “bullets”, sem aprofundar e sem ver nenhum tema em sua totalidade.

A ideia de que os jovens são nativos digitais leva a muitos pais e educadores a abandonar a educação digital dos filhos, pensando, erroneamente, que eles mesmos aprenderão sozinhos e que como os jovens sabem mais que eles, não têm nada para ensinar. Os pais delegam a educação digital num aplicativo de controle parental, que é quem decide a que conteúdos os jovens têm ou não acesso; controle parental que, na verdade, desaparece quando eles se sentam diante de outro computador diferente do seu, momento em que “o proibido” aparece diante de seus olhos como una tentação irrecusável.

Para o mercado laboral, a consequência é que se estão incorporando jovens com smartphones de alta gama nos bolsos que os utilizam somente para enviar mensagens de whatsapp e postar fotos no Instagram. As habilidades relacionadas com as redes sociais ou com a simples busca de informação na internet não são as mesmas que as habilidades laborais (criar, modificar e compartilhar documentação, comunicar-se corretamente no ambiente de um projeto laboral, etc).

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Lembro do caso de um estagiário cuja primeira tarefa no escritório era manter atualizado um documento dentro de um diretório compartilhado. O estagiário demorava muito para atualizar a documentação, e além disso estava sempre grudado ao celular, dando a impressão de que nada importava e que nem sequer tentava cumprir a tarefa encomendada. Mas o que acontecia na verdade é que o jovem era tão viciado em celular e estava tão pouco acostumado a utilizar um computador, que estava acessando o diretório compartilhado através do celular e atualizando com seu smartphone a documentação. Depois, por mais eficiente que fosse com o teclado táctil, seu trabalho era obviamente muito mais lento e com mais erros do que se usasse um PC. Esse rapaz, além do mais, tinha os traços característicos dos nativos digitais: propensão a superestimar suas habilidades digitais, pensam que sabem tudo sobre tecnologia e que não necessitam ajuda, quando na verdade precisam de habilidades para analisar e responder corretamente a enxurrada de informação que recebem continuamente.

Concluindo: nós, os pais, devemos pensar que preparar nossos filhos para o futuro é muito mais do que rodeá-los de dispositivos. Devemos educá-los em seus hábitos de utilização, buscar a formação em tecnologia mais adequada para eles e ensinar que coisas são corretas ou não, no mundo real são as mesmas do mundo digital. Como em muitos outros ambientes da vida, os “imigrantes” temos muito que ensinar aos “nativos”.

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